07/04/2008

Tempos loucos

Estavam discutindo política, em quem votariam nas próximas eleições. a filha, que se definia como de esquerda, aos poucos foi se exaltando. A mãe explicava o seu pensamento, cuidando de jogar água na fervura com uma fala mansa. Ante a posição da mãe quanto a programas assistenciais - não se pode dar o peixe, é preciso ensinar a pescar - a filha ironizava: como transformar famintos e analfabetos em pescadores?

Por favor, me passe a salada.

Analu imaginou que a salada fosse um pretexto para o fim da conversa. Que nada; dona Neidinha logo insistiu quanto à necessidade de um corte radical de impostos. A filha então explodiu.

Caramba, mãe. A senhora sempre foi assim?

Assim, como?, perguntou dona Neidinha, um tanto quanto sem graça.

Assim conservadora, assim retrógrada, assim careta.

Ante o silêncio da mãe, Analu voltou a provocar.

Conservadora em tudo. E o pior: certinha demais.

Dona Neidinha franziu os olhos, que, a despeito de duas plásticas, exibiam rugas em seu contorno. Seu olhar se perdeu, enquanto se lembrava dos loucos anos 70. Os finais de semana com os amigos em um sítio em petrópolis ou numa casa de praia em búzios: muito fumo, por vezes pó. Nas orgias, todo mundo pelado. Fase estranha: bissexual e voraz consumidora de aditivos químicos.

Filha...

Mãe, é inútil ir contra a sua natureza. Você sempre foi careta.

Tens razão, filha, tens razão, concordou dona Neidinha, olhinhos revirados de saudade daqueles tempos muito loucos.

0 comentários: