02/04/2010

Leilane, 66 quilos

Casara-se magra e, salvo engano nas contas, já havia engordado oito quilos. A silhueta evidenciava essa mudança; em toda a vida jamais tivera tanta carne. Todavia, ainda seria injusto classificá-la como gorda, tanto por um exame visual quanto pelo índice de massa corpórea. Encontrava-se ela no tênue limiar feminino onde se confundem abundância de predicados físicos e números indecentes na balança.

Por alguns segundos, todo esse questionamento passou pela cabeça de Leilane. Sozinha em casa, pulou da cama após um filme da Sessão da Tarde e por mero acaso se olhou no espelho - quase inteiramente nua, apenas uma pequena calcinha preta a lhe esconder a intimidade. Havia se posto em pé com o propósito de buscar uma colher das grandes e o pote de sorvete que ainda lacrado estava no congelador.

Com o pote e a colher na mão, olhou-se novamente no espelho do quarto. Inexorável conclusão: três colheradas da iguaria e deixaria de ser gostosa para enfim tornar-se gorda. Hesitou por um instante; por fim, deu um berro de "foda-se" e feliz da vida foi tomar sorvete em frente ao televisor.

0 comentários: